(ESSE CONSELHO EU NÃO
DOU PARA NINGUÉM)

Como coordenador de uma escola particular, eu quis inovar no
último bimestre.
Relacionando-me maravilhosamente bem com os professores,
quis juntar o útil ao agradável: fazer o Conselho de Classe na minha casa, que
era super espaçosa, tinha churrasqueira e piscina, onde, após discutirmos
nossas responsabilidades, faríamos um churrasco.
Na sombra, juntei as mesas da área gourmet, da cozinha e da
sala para que coubessem todos os 15 professores.
Preocupado, no entanto, com o churrasco, cedo coloquei
carvão na churrasqueira e, sei lá por que cargas d’água, resolvi fazer um
“leite de onça” (cachaça com Leite Moça), apesar de a geladeira estar lotada
até a boca de cervejas.
Tudo corria como planejado até que o professor de Literatura
chegou mais cedo e, precisando de alguém que provasse o “leite de onça” para
saber e estava no ponto, ofereci uma dose, que, claro, também provei. Mas, como
a taça era muito pequena, provamos mais duas doses.
Estava ótimo. Até que a professora de História chegou e
também quis prová-lo. E como eu e o professor de Literatura também nos
servimos...
Como todo professor exige que seu aluno não entre em sala
atrasado, mas ele está sempre atrasado nos seus compromissos, não contávamos
que, esperando pelos colegas, a primeira garrafa ficasse vazia.
Piorou, quando a professora de Geografia chegou com os
diários de classe e informações sobre cada aluno, mas trazendo, também,
bolinhos de bacalhau. Já experimentaram bolinhos de bacalhau com “leite de onça”?
É uma combinação perfeita.
Que a verdade seja dita: ela não bebeu nada, mas foi uma
irresponsável, quando mudou o CD de música instrumental, que eu havia colocado
para criar um espírito leve na Conselho, por outro, que era de samba. Pode
parecer coisa maldita, mas vocês já experimentaram a combinação de “leite de
onça,” bolinhos de bacalhau e samba? Garanto que, se os professores de
laboratório de Química soubessem a liga que isso dá...
Nem é preciso dizer que os bolinhos de bacalhau e a segunda
garrafa de “leite de onça” ficaram para contar histórias para os professores
que ainda estavam atrasados.
Pior ficou ainda, quando minha esposa, coitada, querendo
agradar, colocou sobre as mesas amendoins e batatinhas fritas. E como os
bolinhos de bacalhau já tinham acabado, será preciso dizer que esses
salgadinhos também combinam magnificamente com leite de onça e samba?
Como anfitrião e o responsável pelo Conselho, confesso que
não vi o momento em que os derradeiros professores chegaram, mas vi a hora em
que já tinham colocado fogo na churrasqueira e quase colocaram fogo também na casa.
Vi também o instante em que a professora de Matemática jurava que dois mais
dois eram cinco. E mais: o professor de Educação Física enfiar a mão na privada
porque seu celular tinha mergulhado nele antes de dar a descarga; que a
professora de Inglês parecia falar Hebraico; a de Espanhol tropeçou em si mesma
e caiu na piscina, pedindo socorro porque não sabia nadar, apear da sua
profundidade só ter 50 centímetros; o professor de Biologia, pedindo mais um
dose, porque queria se encontrar com o gene da onça para saber por que, através
de seu leite, deixava todo mundo feliz; e o professor de Informática, que, olhando
para o céu, dizia que estava vivendo uma realidade jamais imaginada: sentia-se verdadeiramente
na nuvem.
Resumo da ópera: como era um coordenador extremamente
responsável, na segunda-feira suspendi as aulas para que todos se recuperassem
da ressaca – eu também, é claro -, e fizéssemos o Conselho de Classe. Com muita
água e dipirona.