Estou morrendo... de medo por estar vivo.
Eu sou um cara vivo, mas estou morrendo de medo.
Apesar dos muros erguidos até o céu, as câmeras de segurança
e a cerca elétrica, morro de medo do morro que me cerca.
De que adianta ser uma pessoa honesta, correta, justa, se de
nada vale isso tudo, se estou condenado à prisão domiciliar?
De que adianta pagar caro por um plano de saúde para não
morrer, a Deus dará, se o diabo é meu vizinho?
De que adianta seguir a orientação do cardiologista para
caminhar todos os dias, se não posso sair à rua? O que eu preciso é de um anti-hipertensivo
para tratar do medo que me faz viver tenso o tempo todo. O que eu preciso, é de
um antidiurético, porque vivo urinando nas calças. O que eu preciso também, é que
me receite Imosec porque ando me borrando todo.
Esta não é a saga de um velho que passou a ter medo da vida.
Pelo contrário, esta é a saga de alguém que tem medo da morte.
Vivo numa cidade que, não sei o porquê, ainda chamam de
maravilhosa. Chamam certamente porque não sabem que o céu não é mais azul de
brigadeiro, mas negro de artilheiros; porque o som que se ouvia em cada canto não
é mais o samba, mas o barulho de fuzis e metralhadoras; porque não existe mais a
hospitalidade e a irreverência do carioca, mas a maldade e a indecência do paralelo.
Numa cidade em que a polícia tem medo de bandido; os pontos
turísticos viraram bocas de fumo; e o governo está desgovernado, tenho medo de,
apesar de ser um ser vivido, estar vivo porque esta feliz Cidade Maravilhosa
foi transformada em infeli-Cidade Má e Horrorosa!
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