Lembro que conheci o Sidão quando ele estava indo para o AA.
Não se trata dos Alcoólicos Anônimos, mas, segundo ele, um dos maiores
clássicos do campeonato carioca de futebol. Da terceira divisão, naturalmente:
América X Audax.
Sidão é meu vizinho. Só anda de camisa vermelha, mas não é
por causa de sua preferência política, e, sim, porque é torcedor fanático do
América. E como todo apaixonado é cego, embora, como dizem por aí, que o
tamanho da sua
torcida seria suficiente para encher uma Kombi, ele afirma que o
Mequinha tem a maior torcida do Rio. E justifica: “Se o América é o segundo
clube de vascaínos, tricolores, botafoguenses e flamenguistas...”
Seu fanatismo é tanto, que é capaz de dizer de cor e
salteado os times que se sagraram campeões nos 7 campeonatos conquistados. E
olha que ele não tinha nem nascido! A cor do seu carro é vermelha, e a placa é AFC
1960 (ano da última conquista do Carioca). A cor da sua casa também é vermelha,
e tem até na fachada a célebre frase do hino do clube: “A cor do pavilhão é a
cor do nosso coração!”
Apesar de bater cartão de segunda a domingo, 8 horas por dia
e todos os dias da semana, não perde um jogo do Mequinha. Seja em Volta
Redonda, Friburgo, Sampaio Correa... Para estar presente nesses jogos, dizem
que a desculpa é de que um familiar morreu, e que só a sua mãe, ele já ‘matou’
5 vezes.
Se um dia você quiser identificar o Sidão no meio da
torcida, não será difícil. É óbvio que terá de ir a um jogo do América ou
entrar no site do clube para ver o vídeo dos melhores momentos dos jogos, já
que não passa nada do Mequinha nas emissoras abertas e fechadas. Sidão tem dois
metros de altura, pesa 130 quilos. Além disso, como a sua camisa XGG mal lhe
cabe, o umbigo estufado está à mostra, e sua garganta, que emite uma voz de
trovão, está o tempo todo esgoelando o grito de guerra do time: “Sangue!
Sangue!”
Outro dia, o Sidão chegou no bar animadíssimo. “Agora ninguém vai nos segurar! O Romário
agora é nosso presidente!”, disse alto e em bom som.
“Ora! Se o Romário não joga mais, e vive em Brasília como
senador, que milagre ele vai fazer?” E como a pergunta partiu de todo mundo, a
sua contrariedade foi tanta, que ele não só quebrou a tulipa de chope com os
dentes, como expulsou todos nós, com o olhar mais rubro do que a cor da sua
camisa.
Entretanto, como Sidão quis fazer as pazes, dias depois ele
chegou ao bar com diversas entradas para a decisão da terceira divisão. Jogo
que, se o Mequinha se sagrasse campeão, subiria para a segunda divisão.
“Quero que todos vão comigo! E até já aluguei duas vans para
nos levar ao jogo! Ah! E ai de quem não for!”
Como todos gostamos de futebol e do Sidão – e o Mequinha é o
nosso segundo clube -, no dia e hora marcados, estávamos todos no bar, o ponto
de encontro.
Claro que ficamos surpresos, quando ele disse que o jogo
seria no Maracanã. E ficamos mais surpresos ainda, quando chegamos no estádio,
e vimos a multidão por toda parte. Digna de um Vasco x Flamengo.
“Viram só? Essa é a nossa torcida! Ela só andava escondida porque
andávamos por baixo! Foi só o Romário ser eleito nosso presidente e agente
estar numa decisão, que estamos mostrando a nossa pujança!”, ele disse com um
sorriso, enquanto que a orelha da direita dava volta pela nuca e se encontrava com
a esquerda.
Subimos então a rampa, comungando com a sua felicidade. Mas
qual não foi a nossa cara, quando, após o hino nacional, em vez de entrarem em
campo o árbitro, os bandeirinhas e o time, entrou um pastor.
“Clama, gente!” ele disse. “É que nosso clube, como instituição
social e democrática, também fará sua manifestação contra os preconceitos e
discriminações.”
Mas quando o pastor passou a agradecer os seus fiéis e a dar
início ao culto, a ficha dele caiu. É que não tinha sido ele, mas a esposa que
havia comprado as entradas. E como, há muito anos, tentava fazer com que ele se
convertesse à sua religião...
Ainda bem que, jogando a 100 quilômetros de distância, o
Mequinha venceu e subiu para a segunda divisão. Caso contrário, nós não
chegaríamos de volta, nem ela estaria viva.