Trabalhei muitos anos numa escola, cujo porteiro da manhã já
trabalhava lá quando comecei. Como sempre fui de madrugar, era normalmente o
primeiro a quem ele abria o portão. E a essa hora, como a merendeira já tinha
feito o café, costumávamos jogar aquela conversa fora sobre futebol, violência,
política...
Certa vez, o assunto foi a respeito do nosso alunado: o
irreverente, o inibido, o namorador... Mas qual não foi a minha surpresa,
quando lhe perguntei quem eram os mais educados.
“Educados?! Educados ou educado?”
Foi assustador saber que a escola tinha quase 400 alunos
entre o Fundamental II e o Médio, e ele me acenou com um único aluno — isso
mesmo — um único aluno educado. Aquele que o cumprimentava quando chegava à
escola, quando saía, quando se dirigia a ele para perguntar alguma coisa...
Esta semana, enquanto regava as plantas dos jarros da minha
calçada, constatei o que disse o porteiro naquele dia. Não passava das 7 horas,
e, em razão de duas escolas próximas da minha casa, assim como um ponto de
ônibus, passaram por mim inúmeras pessoas. E acreditem: as únicas que se
dirigiram a mim para dar ou responder ao “bom dia” foram os idosos, como eu. Até
mesmo aqueles que pareciam distraídos ao celular, me cumprimentaram ao se
aproximarem. Até mesmo aqueles que passeavam com os seus cachorros, ao menos me
acenaram com a cabeça, mas os jovens... esses, pouco se lixaram. Nem ao menos,
retornaram com “bom dia” quando os provoquei, lhes desejando alto e em bom som.
Pelo contrário, ainda teve um deles que atirou a embalagem do biscoito que
comia num dos jarros, “pensando” que fosse uma lata de lixo.
Sinto-me um pouco culpado por isso, pois, como professor por
mais de 40 anos, talvez devesse ter feito um pouco mais pela educação,
principalmente nestes últimos anos, os quais lecionei para essa garotada que
está aí. Deveria ter feito o que fiz com meus 4 filhos, que jamais deixariam de
cumprimentar não um idoso, mas quem quer que seja, nem descartar qualquer coisa
num lugar que não fosse uma lixeira.
É bem verdade que nunca gostei do rótulo de que nós,
professores, somos educadores. Sempre me vi como um orientador, conselheiro,
mas educador, para mim, são os pais.
Canso de ouvir que os pais devem fazer de tudo para deixar um
mundo melhor para os seus filhos. Discordo, pois acho que os pais, sim, devem educar
bem os seus filhos, para que eles façam um mundo melhor.
E/T: Quanto ao aluno que atirou a embalagem de biscoito no
jarro de planta, chamei-o de volta, pedi que jogasse numa lixeira e... dei um
belo esporro.