DIVINO PUXÃO DE ORELHA

             Hoje eu acordei amargo. Por mais que tivesse enchido o meu café de açúcar,
estava amargo. Amargo que nem eu. A minha mulher me deu um suave “bom dia”, mas me soou como um trovão. A sensação era de que o mundo acabaria a qualquer momento.

Desconfiado e imaginando o pior, verifiquei a glicose e a pressão. Incrível! Estavam tão normais quanto o nascer e morrer do dia. Botei, então, a Alexa para tocar músicas que pudessem me alegrar; telefonei para os filhos, que sempre me dão palavras motivadoras; li notícias do meu time, que ontem à noite tinha dado uma goleada... Mas nada. Continuei amargo como o jiló.

                 Porém, quando liguei o meu computador e vi que não tinha nada para escrever -  terminei meu recente livro, ontem à noite -, e estava sem inspiração alguma para começar algo novo, foi que caí na real, foi que então supliquei: “Por favor, meu Deus, me ajude a sair dessa!”

                Mas qual não foi a minha surpresa, quando Ele me disse: “Por acaso, você se lembrou de mim, para agradecer à inspiração que lhe dei, quando colocou seu ponto final no livro, ontem à noite? Enquanto se deleitou durante todos os dias em que o escrevia, lembrou de me chamar para ouvir cada página quando lia? Pois se não me convidou para os seus momentos de alegria, por que está me chamando agora que está triste?”

                E foi então que tudo se transformou. Orei, pedindo o seu perdão. E qual não foi, mais uma vez, a minha surpresa, quando me veio a inspiração para escrever. Escrever justamente sobre isso.

A DÚVIDA DO BOTAFOGUENSE

 


                Um certo torcedor do Botafogo (não cito o nome para que meu vizinho não coma o meu fígado), na hora de fazer a declaração do Imposto de Renda deste ano, teve uma dúvida e ligou para a Receita Federal.
                “Entusiasmadíssimo com a campanha do Fogão no Brasileirão do ano passado, comprei o título do clube. Devo declarar?”
E eis que lhe responde o agente:

“Caro contribuinte, cuidado!  Se no ano passado o senhor comprou o título que o Botafogo não ganhou, é corrupção! Além disso, só se declara à Receita aquilo que se ganha. Já que em 2023 o Botafogo não ganhou nada, o senhor não tem nada a declarar. Está isento!”

ÊTA LINGUA PORTUGUESA!

     Cheguei num bar e pedi ao garçom:

                “Por favor, um chope escuro!

                “Escuro?”

                “Claro!”

                “Desculpe, senhor. Claro ou escuro?

                “Escuro!”

                “Então, escuro, certo?”

                “Claro!”

                Como ficamos nesse impasse vários minutos e a sede era insuportável, troquei o pedido:

                “Traz, então, uma água mineral.”

                “Mineral?”

                “Natural!”

                “Desculpe, senhor. Mineral ou natural?”

                “Mineral!”

                “Então, é mineral, certo?”

                “Natural!”

                E acabei saindo do bar mais morto de sede do que entrei.

 

*****

 

                Depois do assalto em minha casa, que foi tarde da noite, o policial perguntou:

                “Então foi à noite?”

                “Tarde!”

                “Tarde ou à noite?”

                “Tarde! À noite!”

                “Desculpe, mas... tarde ou à noite?”

                “Tarde! À noite!”

                “Tarde, então?”

                “Já disse! À noite!”

                E nesse vai e vem, acabei não registrando o assalto.

 

*****

 

                O Joaquim, vindo de Além-Mar, com a recomendação do seu amigo Manoel que, no Brasil, tinha um prato maravilhoso, o qual ele não deveria deixar de provar, retornou “p” da vida à “terrinha”.

                “E então, provou daquilo que sugeri?”, perguntou Manuel, assim que se reencontraram.

                “Provar, eu provei! Mas não sabia que me querias muito mal!”

                “Por quê?”

                “Ora, pois! Porque eles me arrebentaram todo o ânus!”

                “Como assim?”

                “Ao chegar ao restaurante, assim que fiz o pedido, eles me levaram para um quarto escuro e me enrrabaram. Afinal, era uma rabada e eu não soube pedir? Ora, se eu soubesse que aquilo era a tal surubinha...”

                “Surubinha?! Que surubinha, Manel?! Eu me referi ao pintado, que lá no Brasil chamam de surubim!”

*****

                Eu e minha mulher fomos passar férias na Bahia.

                Sei lá por que cargas d’água, ela cismou que teria de comprar um novo sutiã. Assim, em vez de sairmos do hotel para conhecer os pontos turísticos de Salvador, fomos às lojas de artigos femininos.

                Depois de entrarmos em diversas lojas e ninguém ter o que ela desejava, é que descobrimos que, por lá, o sutiã chama-se galefom.

                Até aí, tudo bem. Pior foi quando estávamos numa praça pública, e uma mulher, batendo com uma das mãos entre as pernas, chamando seu cachorrinho, nos deixou tremendamente assustados. E ficamos assim até descobrirmos que lá, o diminutivo de Pedro é Piroca!

O VENDEDOR E A ENTREVISTA

               Eu não fui somente professor. Nas minhas andanças profissionais, trabalhei na área de vendas.

             Tive sorte. Depois de algum tempo, fui promovido ao cargo de supervisor e, vejam só, juntamente com meu gerente, tive a responsabilidade de escolher o candidato que tomaria o meu lugar.

                Nesse dia, a minha experiência foi inusitada. Não só pela pergunta que meu gerente encerrava a entrevista, como pelas respostas dos candidatos.

                Pois bem, o candidato entrava, se apresentava e, após perguntarmos sobre suas experiências profissionais, objetivos na empresa, pretensão salarial, o meu gerente encerrava a entrevista perguntando: “Quanto são dois mais dois?”

                O primeiro candidato, assim como eu, surpreendeu-se com a pergunta, porém, foi taxativo: “Dois mais dois são quatro!”

               Resposta obviamente certa, que não só teve o sorriso do meu gerente, como a recomendação de que ele aguardasse em casa o contato da empresa.

                O segundo candidato foi no mesmo tom. Porém, já não se surpreendeu tanto com a pergunta, e foi até audacioso na resposta: “Ora, quem trabalha com vendas sabe que dois mais dois são cinco!”

                Resposta que fez com que meu gerente abrisse um sorriso de orelha a orelha, porém, pedisse que ele aguardasse em casa um contato da empresa.

                A entrevista do terceiro candidato foi uma reprise entediante. No entanto, quando lhe foi feita a pergunta-chave, e vi que o sorriso do meu gerente fez com que os cantos da boca se encontrassem na nuca, não tive dúvida: a vaga seria dele.

                 “Quanto são dois mais dois?”, o gerente perguntara.

                E numa resposta rápida e precisa, ele disse:

                “Qual o resultado que o senhor deseja que eu responda?”



QUANDO NASCI NOVAMENTE


No dia 27 de setembro de 1977, então com 23 anos, nasci novamente.

    Era bem cedo, quando deixei Jacarepaguá na direção de Botafogo, onde, cursando Ciências Biológicas, teria uma prova na Universidade Santana Úrsula. Havia combinado com minha avó que, logo após a prova, eu a levaria a uma comunidade carente para distribuir seus doces de São Cosme e São Damião.

    Eu jamais fiz aquela prova, como não levei minha vó para distribuir seus doces naquela manhã. Ainda não eram 7 horas, quando, no cruzamento das ruas José Linhares com Alberto de Campos, no Leblon, meu carro foi abalroado por alguém que não respeitou o sinal.

    Nasci novamente. Talvez seja melhor dizer que fui gerado novamente, pois, como a primeira gestação, também aguardei 9 meses para saber de fato quem eu era. Sim, porque, quando abri os olhos no Hospital Miguel Couto, com traumatismo craniano, deslocamento de bacia, 54 pontos na beça e um dos pés quebrados, estava com amnésia.

    O que sei sobre esses 9 meses foi contado pela minha mãe, meu irmão e minha vó, que, depois de receber alta do hospital, cuidaram de mim.

    Não sei se toda amnésia é assim, mas eu não deletei da minha pasta todos os arquivos. Além de mim mesmo, infelizmente, esqueci dos amigos, dos meus pais, dos avós, do meu irmão, e vejam só, da namorada. Mas os arquivos dos conhecimentos gerias, como a Matemática, o Português, a leitura e, por incrível que possa parecer, o desejo pela escrita, permaneceram intactos. E, nesse aspecto, segundo minha mãe, eu me recolhia no quarto e, com uma prancheta, folhas de rascunho e uma caneta, eu escrevia, escrevia, escrevia... Algo que, segundo ela, depois que me recuperei, justificava: “Como você precisava respirar, e escrever sempre foi seu oxigênio...”

    Ela dizia, também, que era terrível, quando meus amigos vinham me visitar e, tentando de toda maneira — contra a vontade dela e dos médicos —   fazer com que me lembrasse deles, intempestivamente, eu acabava os expulsando de casa como os vendilhões do templo. Mas também, rindo, dizia que a maior dor de cabeça que eu tinha não era devido à pancada e da cirurgia, mas da namorada que não aceitava de jeito algum o fato de não lembrar da sua existência.

    Tenho, até hoje, guardadas as fotos do meu Fuscão todo destruído. Foi realmente um milagre ter sobrevivido, quando olhamos para elas. O carro, cujo o seguro, infelizmente, tinha vencido uma semana antes, foi vendido a uma oficina por preço de banana. Ah! E por falar em banana, esse também foi um arquivo que deletei da mente: nenhuma comida de que eu gostava antes, e que minha mãe e avó faziam para me agradar, coitadas, ganhavam de volta uma baita cara feia.

    Também tenho guardado tudo o que escrevia. Interessante que, sem o menor jeito para fazer o “O” com um copo, também desenhei uma capa – uma lâmpada, que rodeada por mosquitos e descendo do teto até uma cama, tomava o lugar da minha cabeça acima do título – quem sabe de uma suposta publicação —, que dizia: Suíte do Desesperado.

    De vez em quando - principalmente, quando faço esse meu segundo aniversário – eu releio esses textos. Mas, ainda, como me parecem hieroglifos, que não consigo decifrar, continuam guardados.

    Dizem que, quando acontece um milagre e a gente renasce, passa a ver a vida de outro modo, é verdade sim!  Eu, que nunca acreditei em São Cosme e São Damião – levava a minha avó para distribuir seus doces porque, simplesmente, era a minha avó, hoje tenho certeza de que, se não fossem eles me protegendo, teria morrido. E mais: eu, que sempre fui católico apostólico romântico – e não praticante porque só falava com Deus via Embratel -, tenho Ele no meu coração, no meu dia a dia, nos meus passos... E por que sinto que devo retribuir toda essa gratidão de ter nascido de novo com aquilo que, humildemente, acho que é o melhor que posso fazer, eu escrevo, escrevo, escrevo...

SAUDOSISTA COM MUITO ORGULHO

Dizem que saber envelhecer é uma arte e que o vinho quanto mais velho, melhor. Acredito que a arte desse envelhecimento está no saudosismo...