No dia 27 de setembro de 1977, então com 23 anos, nasci
novamente. Era bem cedo, quando deixei Jacarepaguá na direção de
Botafogo, onde, cursando Ciências Biológicas, teria uma prova na Universidade
Santana Úrsula. Havia combinado com minha avó que, logo após a prova, eu a
levaria a uma comunidade carente para distribuir seus doces de São Cosme e São
Damião.
Eu jamais fiz aquela prova, como não levei minha vó para
distribuir seus doces naquela manhã. Ainda não eram 7 horas, quando, no
cruzamento das ruas José Linhares com Alberto de Campos, no Leblon, meu carro
foi abalroado por alguém que não respeitou o sinal.
Nasci novamente. Talvez seja melhor dizer que fui gerado
novamente, pois, como a primeira gestação, também aguardei 9 meses para saber
de fato quem eu era. Sim, porque, quando abri os olhos no Hospital Miguel
Couto, com traumatismo craniano, deslocamento de bacia, 54 pontos na beça e um
dos pés quebrados, estava com amnésia.
O que sei sobre esses 9 meses foi contado pela minha mãe,
meu irmão e minha vó, que, depois de receber alta do hospital, cuidaram de mim.
Não sei se toda amnésia é assim, mas eu não deletei da minha
pasta todos os arquivos. Além de mim mesmo, infelizmente, esqueci dos amigos, dos
meus pais, dos avós, do meu irmão, e vejam só, da namorada. Mas os arquivos dos
conhecimentos gerias, como a Matemática, o Português, a leitura e, por incrível
que possa parecer, o desejo pela escrita, permaneceram intactos. E, nesse
aspecto, segundo minha mãe, eu me recolhia no quarto e, com uma prancheta,
folhas de rascunho e uma caneta, eu escrevia, escrevia, escrevia... Algo que,
segundo ela, depois que me recuperei, justificava: “Como você precisava
respirar, e escrever sempre foi seu oxigênio...”
Ela dizia, também, que era terrível, quando meus amigos
vinham me visitar e, tentando de toda maneira — contra a vontade dela e dos
médicos — fazer com que me lembrasse deles, intempestivamente,
eu acabava os expulsando de casa como os vendilhões do templo. Mas também, rindo,
dizia que a maior dor de cabeça que eu tinha não era devido à pancada e da
cirurgia, mas da namorada que não aceitava de jeito algum o fato de não lembrar
da sua existência.
Tenho, até hoje, guardadas as fotos do meu Fuscão todo
destruído. Foi realmente um milagre ter sobrevivido, quando olhamos para elas. O
carro, cujo o seguro, infelizmente, tinha vencido uma semana antes, foi vendido
a uma oficina por preço de banana. Ah! E por falar em banana, esse também foi
um arquivo que deletei da mente: nenhuma comida de que eu gostava antes, e que
minha mãe e avó faziam para me agradar, coitadas, ganhavam de volta uma baita
cara feia.
Também tenho guardado tudo o que escrevia. Interessante que,
sem o menor jeito para fazer o “O” com um copo, também desenhei uma capa – uma
lâmpada, que rodeada por mosquitos e descendo do teto até uma cama, tomava o
lugar da minha cabeça acima do título – quem sabe de uma suposta publicação —,
que dizia: Suíte do Desesperado.
De vez em quando - principalmente, quando faço esse meu
segundo aniversário – eu releio esses textos. Mas, ainda, como me parecem hieroglifos,
que não consigo decifrar, continuam guardados.
Dizem que, quando acontece um milagre e a gente renasce,
passa a ver a vida de outro modo, é verdade sim! Eu, que nunca acreditei em São Cosme e São
Damião – levava a minha avó para distribuir seus doces porque, simplesmente,
era a minha avó, hoje tenho certeza de que, se não fossem eles me protegendo,
teria morrido. E mais: eu, que sempre fui católico apostólico romântico – e não
praticante porque só falava com Deus via Embratel -, tenho Ele no meu coração,
no meu dia a dia, nos meus passos... E por que sinto que devo retribuir toda
essa gratidão de ter nascido de novo com aquilo que, humildemente, acho que é o
melhor que posso fazer, eu escrevo, escrevo, escrevo...