O
que vou relatar abaixo é real e foi contado a mim por uma pessoa que, além de
ter sido honrada e de moral elevada, também viveu na própria carne um triste e
desprezível capítulo de corrupção do nosso futebol: meu pai.
Passava
pouco mais de 1950, quando, promovido a primeiro-tenente, e recém-concluído a
Escola de Educação do Exército, ele foi transferido para São Leopoldo, no Rio
Grande do Sul.
Logo,
uma proposta do Clube Esportivo Aimoré para que ele se tornasse o preparador
físico do time principal aconteceu, e, uma vez que o expediente era somente pela
manhã e o seu comandante não viu motivos para se opor, ele aceitou o convite.
Treinos puxados à tarde, jogos nos finais de
semana... Em pouco tempo, aquilo que o time melhorou fisicamente, passou a
compensar as suas deficiências técnicas, subindo na tabela do campeonato. Até
que veio a semana do jogo contra um dos dois poderosos de Porto Alegre.
No
primeiro dia de treino, meu pai achou estranho que um dos diretores, que nunca
aparecia, surgiu para dizer aos jogadores que se empenhassem ao máximo, pois o
outro time poderoso, estava oferecendo um prêmio, caso conseguissem um empate
ou uma vitória.
Como
se tratava da primeira experiência de meu pai no futebol profissional, achou
aquele incentivo estranho, mas relevou e até passou a estender os treinos para o
turno da noite. Sendo um time pequeno, com salários modestos, por que não um
incentivo a mais?
Dia
do jogo. Segundo meu pai, se os atletas estavam muito bem fisicamente, a promessa
da premiação havia injetado um entusiasmo e motivação tão fora do comum, que seria
capaz de apostar numa vitória maiúscula do Aimoré naquela tarde.
Meu
pai começou então a dar o aquecimento. Mas qual não foi a sua surpresa, quando
aquele diretor, que nunca aparecia nos treinos, adentrou bruscamente no vestiário
e, com um sorriso de orelha a orelha, disse:
“Vocês
não precisam mais endurecer. Este time com quem vamos jogar agora, vai nos
pagar o dobro para entregarmos o jogo!”
Se
nos anos 50 já era assim e nunca foi feito nada, só nos cabe fazer uma paródia com
aquela música do Cazuza: “BET balanço, meu amor, me avise quanto me paga
agora!”

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