Como trabalhei numa escola em que o digitador da mecanografia costumava dizer que produzia muito mais e melhor, após tomar uns “gorós”, tive a inspiração (ou piração) para escrever esse conto.
O
DIGITADOR ESCOLAR
O novo digitador da mecanografia do colégio de freiras Servas de Fé e Ação do Senhor, quando começou a trabalhar na instituição, estava com o seu prestígio profissional acima dos mortais. Afinal, dentre uma centena de candidatos, seu desempenho, no processo de seleção, tinha sido simplesmente extraordinário.
Na primeira etapa
do processo – digitar no Word Os Lusíadas -, ele chegou à média de 200 toques
por minuto. E sem um único erro, de palavras e pontuação.
Na segunda etapa,
ele confeccionou em Excel a tabela periódica em apenas 20 minutos, e também sem
um erro sequer: símbolos, distribuição de elétrons nas camadas, números
atômicos...
E na terceira
etapa, foi mais surpreendente ainda. Transcreveu para o Word um texto de
Shakespeare, em inglês, impresso em fonte 4, atingindo a média de 185 toques
por minuto. E, como das vezes anteriores, sem qualquer erro.
Talvez o processo
fosse menos rígido se o digitador anterior não tivesse cometido um erro
imperdoável, que levou a direção a demiti-lo sumariamente, apesar dos seus dez
anos de serviços prestados à escola.
“Mas, Irmã,
revisão de texto não é de minha responsabilidade, e sim do professor!”, ele até
tentou se defender, na hora da demissão.
“Acontece, porém,
que o erro foi no cabeçalho e não no texto. E isso é uma responsabilidade sua!”
A Madre Superiora
e toda a Ordem das Servas de Fé e Ação do Senhor realmente não tiveram outra
alternativa senão demiti-lo, quando leram o cabeçalho de todas as provas
bimestrais: “Colégio das Servas de Felação do Senhor”.
Indiscutivelmente,
os testes do novo digitador conceituaram-no como competentíssimo. Ainda mais se
levando em conta que ele jamais estudara Química, e muito menos falava inglês.
Seu poder de perfeita digitação não era técnico, mas um privilégio raro:
memorizar fotograficamente, num único olhar, tudo o que avistava, fossem
palavras, desenhos, mapas, símbolos, hieróglifos... Privilégio raríssimo, que
só costumava ser destruído quando a mente estava alcoolizada.
Como a Covid
provocara um reboliço total no calendário da escola, fazendo com que todas as
avaliações do 3º bimestre, do fundamental aos cursos técnicos do ensino médio,
tivessem de ser marcadas para a mesma semana, a coordenadora geral disse à
Madre:
“Não acha que,
por precaução, deveríamos transferir as datas das avaliações, pois o digitador
vai ficar sobrecarregado?”
“Transferir?!
Isso nunca! Esqueceu de que ele é um exímio digitador?”
“E as revisões
das provas, Madre? Já imaginou se todos os professores devolverem as provas
revisadas ao mesmo tempo, e em cima da hora?”
“Não se preocupe
porque, com esse digitador, revisão de prova passou a ser coisa do passado!
Esqueceu do seu desempenho no processo de seleção? Ele não erra nunca! Nunca!”
“E as circulares,
os boletos de pagamento dos passeios...?”
“Isso é cafezinho
pra ele!”
Embora as provas
só começassem às oito horas, às sete já estava, no gabinete da Madre, o
responsável por um aluno do primeiro ano do ensino médio, injuriado.
“O nome do meu
filho é Dênis, e não Pênis, como está nesse boleto. E o pagamento é pró-Instituto
de Biologia, e não Prostituto de Boiologia!”
“!”
Sequer passou um
segundo da saída daquele responsável, o seu telefone tocou:
“Madre, houve um
erro gravíssimo de digitação. Meus alunos do primeiro ano...”
“Já sei! Já tomei
conhecimento daquele ‘Prostituto’...”
“Eu também acho
esse digitador um prostituto, porque terei que suspender a provinha deles!”
“Provinha?! Do
que você está falando? Não é um boleto de cobrança?”
“Madre, quem está
falando é a professora do primeiro ano do fundamental. Estou me referindo à
frase da construção da letra “V”. Em vez de “Vovó viu a uva” ele trocou o ‘viu’
pelo ‘deu’...”
“Deve ser a sua
letra, professora. Você precisa estar mais atenta à sua letra cursiva. Assim,
não tem digitador que adivinhe. Mas... O que há de errado se, em vez de ‘Vovó
viu a uva’ foi escrito ‘Vovó deu a uva’?”
“Nada de mais se,
ao invés de ‘Vovó deu a uva’ ele não tivesse escrito ‘Vovó deu a vulva’”
“!”!
Com a intenção de
ir pessoalmente à mecanografia, a Madre levantou-se a jato. Mas, no primeiro
passo que deu, foi interceptada pelo coordenador dos cursos técnicos do ensino
médio.
“Posso lhe falar?
É urgente.”
“Estou indo à
mecanografia falar com o digitador...”
“É sobre aquele
prostituto?”
“Ah! O senhor
também já tomou conhecimento do ‘Prostituto’?”
“Claro! Afinal,
só pode ser prostituto quem escreve essas barbáries!”
“!!!”
“No curso de
Administração, os exames são chamados de teses e não de fezes; e a prova de
desfile de passarela é no curso de Moda e não de... Ele simplesmente trocou o
‘M’ pelo ‘F’!”
Em seguida, sua
sala foi tomada de professores, coordenadores, funcionários... O caos era
total.
O coordenador de
História era um dos mais agitados.
“Ele só pode
estar me boicotando. Se eu o vir... Parto a cara dele!”
“!!!!”
“Onde já se viu
trocar feudalismo por... fodalismo? E a sedição no Pará, conhecida como
Cabanagem, por Sacanagem?”
“Pior foi comigo,
na Geografia.”
- !!!!!
- O Lago Titicaca, no Peru, passou a ser Titica
mesmo, e a maior planta cultivada na Amazônia mudou de nome. Em vez de juta...
Imaginem uma questão assim: “Em que estado do Brasil ocorre a maior exploração
de puta?”
“Isso, não é
nada!”
“!!!!!!”
“Na minha prova de Filosofia, Hipócrates passou a
ser chamado, sem mais nem menos, de Hipócrita; e na de Sociologia, não foi com
o Fordismo que Henry Ford estimulou a produção em massa, mas com o Fodismo!”
“Pior foi na
minha! Como professor de Física, eu sempre ensinei que os relâmpagos são
centelhas elétricas, e não pentelhas elétricas!”
“!!!!!!!”
“Alto lá, minha
gente! Comparem o meu rascunho com a digitação desse prostituto! Está, aqui,
bem legível: “O homem tem vários gametas...” E o cara digitou: “O homem tem
ovários manetas...” E numa outra questão: o úmero virou útero, e passou a ser
um osso que menstrua!”
E como se isso
não fosse o bastante, o professor de Química gritou:
“E a bureta?! E a
bureta?! Sabem no que ela se transformou?”
“!!!!!!!! Pelo
amor de Deus, professor! Nem se atreva a dizer!”
“Por favor,
gente, tragam um chá para a Madre!”
“Um Lexotan,
também!”
“Abana ela! Abana
ela!”
“Verifica o
pulso! Ela está respirando?”
“Beba isso,
Madre! Tenha calma!”
“Está se sentindo
melhor agora?”
“Ainda bem que as
provas não chegaram às mãos dos alunos, Madre. Já imaginaram se tivessem lido
essas atrocidades?”
“Concordo, mas...
Se bem que há professores que, pelo amor de Deus, a letra é um verdadeiro
garrancho. Não há como o digitador entender. Afinal, ele não tem graduação em
Física, Química, Filosofia, História...”
“Isso, é verdade!
Por isso, que eu sempre entrego as minhas avaliações em CD.”
“Eu as envio por
e-mail!”
“Tudo bem! Tudo
bem! Vamos, então, transferir as provas. Comunicaremos aos alunos que deu vírus
no computador. Deus há de me perdoar por essa mentirinha.”
“E as
advertências, Madre?”
“Não me diga que
também houve problema de digitação na coordenação de disciplina.”
“Bem, é que...
que... Eu pedi que ele escrevesse no formulário de advertência de uma aluna do
9° ano, que deu, no recreio de ontem, um soco no colega e não um bofetão...”
“E daí? É tudo a
mesma coisa: soco, murro, bofetão...”
“Eu concordo...
Se ele não tivesse trocado o “f” pelo “c”!”
“Não! Essa, não!
Dai-me forças, Senhor Je...sus!”
Mas se, ao invés
de tanta prova prática para admitir o digitador, as Servas de Fé e Ação do
Senhor tivessem pelo menos contatado com o departamento do pessoal do seu
último emprego... Pois, no cabeçalho da circular que foi enviada para todos os
responsáveis, não estava escrito Jardim Escola Braga e Costa, mas Jardim Esmola
Brega e Bosta. E que, se não tivesse trocado o “g” pelo “c” o meio de
transporte, o qual os alunos do 4º ano deveriam desenhar na prova, seria uma
piroga.

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