Era bem cedo, quando deixei Jacarepaguá na direção de Botafogo, onde, cursando Ciências Biológicas, teria uma prova na Universidade Santana Úrsula. Havia combinado com minha avó que, logo após a prova, eu a levaria a uma comunidade carente para distribuir seus doces de São Cosme e São Damião.
Eu jamais fiz aquela prova, como não levei minha vó para
distribuir seus doces naquela manhã. Ainda não eram 7 horas, quando, no
cruzamento das ruas José Linhares com Alberto de Campos, no Leblon, meu carro
foi abalroado por alguém que não respeitou o sinal.
Nasci novamente. Talvez seja melhor dizer que fui gerado
novamente, pois, como a primeira gestação, também aguardei 9 meses para saber
de fato quem eu era. Sim, porque, quando abri os olhos no Hospital Miguel
Couto, com traumatismo craniano, deslocamento de bacia, 54 pontos na beça e um
dos pés quebrados, estava com amnésia.
O que sei sobre esses 9 meses foi contado pela minha mãe,
meu irmão e minha vó, que, depois de receber alta do hospital, cuidaram de mim.
Não sei se toda amnésia é assim, mas eu não deletei da minha
pasta todos os arquivos. Além de mim mesmo, infelizmente, esqueci dos amigos, dos
meus pais, dos avós, do meu irmão, e vejam só, da namorada. Mas os arquivos dos
conhecimentos gerias, como a Matemática, o Português, a leitura e, por incrível
que possa parecer, o desejo pela escrita, permaneceram intactos. E, nesse
aspecto, segundo minha mãe, eu me recolhia no quarto e, com uma prancheta,
folhas de rascunho e uma caneta, eu escrevia, escrevia, escrevia... Algo que,
segundo ela, depois que me recuperei, justificava: “Como você precisava
respirar, e escrever sempre foi seu oxigênio...”
Ela dizia, também, que era terrível, quando meus amigos
vinham me visitar e, tentando de toda maneira — contra a vontade dela e dos
médicos — fazer com que me lembrasse deles, intempestivamente,
eu acabava os expulsando de casa como os vendilhões do templo. Mas também, rindo,
dizia que a maior dor de cabeça que eu tinha não era devido à pancada e da
cirurgia, mas da namorada que não aceitava de jeito algum o fato de não lembrar
da sua existência.
Tenho, até hoje, guardadas as fotos do meu Fuscão todo
destruído. Foi realmente um milagre ter sobrevivido, quando olhamos para elas. O
carro, cujo o seguro, infelizmente, tinha vencido uma semana antes, foi vendido
a uma oficina por preço de banana. Ah! E por falar em banana, esse também foi
um arquivo que deletei da mente: nenhuma comida de que eu gostava antes, e que
minha mãe e avó faziam para me agradar, coitadas, ganhavam de volta uma baita
cara feia.
Também tenho guardado tudo o que escrevia. Interessante que,
sem o menor jeito para fazer o “O” com um copo, também desenhei uma capa – uma
lâmpada, que rodeada por mosquitos e descendo do teto até uma cama, tomava o
lugar da minha cabeça acima do título – quem sabe de uma suposta publicação —,
que dizia: Suíte do Desesperado.
De vez em quando - principalmente, quando faço esse meu
segundo aniversário – eu releio esses textos. Mas, ainda, como me parecem hieroglifos,
que não consigo decifrar, continuam guardados.
Dizem que, quando acontece um milagre e a gente renasce, passa a ver a vida de outro modo, é verdade sim! Eu, que nunca acreditei em São Cosme e São Damião – levava a minha avó para distribuir seus doces porque, simplesmente, era a minha avó, hoje tenho certeza de que, se não fossem eles me protegendo, teria morrido. E mais: eu, que sempre fui católico apostólico romântico – e não praticante porque só falava com Deus via Embratel -, tenho Ele no meu coração, no meu dia a dia, nos meus passos... E por que sinto que devo retribuir toda essa gratidão de ter nascido de novo com aquilo que, humildemente, acho que é o melhor que posso fazer, eu escrevo, escrevo, escrevo...

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